These 10 fictions are a part of the permanent exhibition of Guimarães's most recent Casa da Memória. Depicting a city of the past in the future,  these (im)possible realities — based in real stories that appeared in the news years ago, are imagined reframed in a forecast in which they would be analysed from an archeological point of view (had they became real). To which conclusions would the historians agree? How would those reinterpreted stories change the future and how can they also change our present? Featured in P3.

 
 

ABSTRACT [PT]

Num compartimento subterrâneo e até hoje desconhecido de uma antiga biblioteca foram descobertos os documentos em exposição. Técnicos historiográficos atribuem as 10 ilustrações a diferentes autores e datam as descobertas do início do III milénio. Todos os desenhos são visões parciais da mesma cidade, localizada a norte do território outrora denominado Portugal, na ex União Europeia.

Estudiosos da representação já manifestaram o seu interesse em analisar os documentos, pela raridade do seu carácter figurativo, linguagem que foi intensamente explorada nos dois primeiros milénios ACND*, quando a linguagem gráfica e verbal ainda ocupava espaço.

A razão do inflamado debate em torno desta descoberta é a sua aparente contradição com o que se supunha ser a verdade histórica da cidade de Guimarães. A discordância entre as memórias colectivas acreditadas e armazenadas (MCAA) e as imagens recentemente descobertas reabriu a discussão acerca dos filtros, parâmetros de verificação e armazenamento das MCAA, em particular no departamento da Terra e Território Habitado.

Esta mostra transporta-nos para um tempo de cidades construídas sobre o solo, que se podiam percorrer caminhando; territórios com nome próprio, compostos por tecidos urbanos densos, díspares, e pontuados por elementos simbólico-decorativos nos espaços de exceção. A urbe era um símbolo do local, (não uma abstração do global); era um lugar. Há quem se recorde ainda dos centros históricos cobertos com cúpulas invisíveis de preservação museológica do passado (doc.10).

A propósito dos 10 documentos de memórias não identificadas (MNI) têm surgido diversas teorias, sem que se tenha chegado ainda a um consenso. A mais apoiada é a de que as memórias, tal como os futuros, não são unívocos, mas sim paralelos e convergentes. Segundo esta leitura, a versão do passado onde D. Maria II mandou colocar uma estátua a D. Pedro IV, por ocasião de elevação da vila a cidade em meados do sec. XIX, convive pacificamente com a versão em que não se erigiu qualquer estátua por falta de financiamento (doc.3). Esta teoria defende que a memória de uma cidade dividida em duas, de acordo com traçado medieval (doc.1), é tão verosímil como a memória de uma cidade una, cujos emblemas eram o castelo, o futebol, a oliveira, o pinheiro. Segundo os defensores dos futuros paralelos é tão verdade que o Monte da Penha tenha sido uma paisagem construída por obra de uma comissão de melhoramentos, como a sua conformação como escultura gigante da figura de Dom Afonso Henriques, ou ainda como a sua transformação num enorme parque de diversões (doc.6).

Da mesma forma, é tão verdade que se retirou a estátua da Fama do edifício do Toural devido ao seu peso, como a sua manutenção no local devido a reforços na estrutura. Neste passado, a Fama tornou-se um centro de notícias e controle de comunicação (doc. 2). Todos os passados são possíveis, e acredita-se que terá sido um obstinado seguidor da teoria da bifurcação temporal quem terá comissariado as 10 ilustrações.

Outro grupo afirma convictamente que os 10 documentos têm origem em projetos utópicos de arquitetos, que pretendiam provocar os habitantes da cidade, confrontando-os com futuros insólitos. Ao confrontar o observador com cenários improváveis, porventura impossíveis, o real ganharia novos contornos. De notar como o doc. 7 revela as várias propostas a concurso para uma segunda torre da igreja do Toural. O doc. 9 mistura um alçado de Marques da Silva** com uma secção de um parque de estacionamento onde crescem árvores. Sob os espaços que possivelmente se destinariam a comércio, localiza-se uma biblioteca com um compartimento secreto. Terá sido precisamente neste compartimento secreto que os 10 documentos foram encontrados.

Entretanto foi criada uma comissão de verificação da veracidade e verosimilhança das memórias (CVVVM), para averiguar cientificamente quais os documentos que daqui em diante devem ser integrados na MCAA, iniciando-se um debate acerca da importância de planear e legislar as memórias, para que o seu armazenamento seja mais eficaz e se evitem impasses e inexatidões. Mesmo que se procurasse integrar no sistema o doc. 5, por exemplo, não se conseguiria determinar se se trata de uma representação realista ou se a quantidade de oliveiras nas coberturas dos edifícios deve ser entendida como um recurso gráfico de repetição para enfatizar uma ideia.

Tratar-se-á de documentos falsos? No doc. 4 representa-se uma ausência (da torre do castelo) fora de escala. A representação da ausência é a prova da falsidade da representação. A memória hiperboliza o que recorda com melancolia, repetindo mentiras a si mesma. E então a memória é uma construção a posteriori, e os documentos, verdadeiros ou falsos, apenas pequenas mentiras.

Finalmente surgem ainda vozes de descendentes vimaranenses, que, não se identificando com nenhuma das anteriores hipóteses, acreditam que os documentos foram produzidos pela própria população local com o intuito de confundir as memórias de quem viesse depois. Reportam-se ao doc. 8, onde uma plataforma petrolífera conquista a praça do Toural, cenário absurdo. Só a incerteza da memória permite a imaginação do futuro.

Os desenhos misteriosos, catalogados provisoriamente como MNI, aguardam a análise da CVVVM, cuja decisão é imprevisível: integrá-los na MCAA, ou ordenar a sua destruição.

* antes da codificação neuro-digital
** Paços do Concelho, mais tarde chamada Câmara Municipal. Segundo as MCAA este edifício nunca foi construído, tendo ficado apenas em projeto.

Memória descritiva,
Ana Aragão

Colaboração Francisco Pereira